*Emerson Marinho
Se aproxima dos quatro meses do primeiro caso do novo Corona vírus no
Brasil. À medida em que os números crescem exponencialmente, aos poucos, a vida
está voltando ao normal.
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Fila para atendimento em banco.
FOTO: José Leomar |
Os três primeiros meses do ano de
2020 foram de pânico em todo o mundo. O Brasil assistia estarrecido aos países
da Ásia e Europa sucumbindo à uma doença desconhecida e extremamente fatal.
Milhares de doentes se amontoavam nos hospitais sem equipamentos suficientes
para mantê-los vivos. Covas abertas às centenas para enterrar tantos mortos diariamente.
Os brasileiros, em sua grande maioria, temiam exageradamente, a pandemia já
decretada. Se nos países ao norte do Paralelo do Equador, em sua maioria com
economias estáveis e serviços de saúde de excelência, os efeitos da doença eram
devastadores, o que seria dos países do Hemisfério Sul, inclusive do Brasil?
Ainda, com uma dezena de mortos diárias
no Brasil, e temendo uma crise de saúde pública sem precedente, governadores
decretam o isolamento social. A população, em sua grande maioria atende às ordens,
ainda que, por medo.
Três meses depois, o número de
mortos diário já chega à casa dos milhares, os contaminados já chegam a meio
milhão. No entanto, diferente do que se esperava, a maioria dos brasileiros intensifica
o relaxamento do isolamento se amontoando em festas, shoppings e outros espaços
públicos e privados, já descartando o uso da máscara e das outras recomendações
de segurança.
Mas o que aconteceu para se impor
esta dicotomia tão gritante e quase inexplicável?
Utilizando uma analogia bastante alegórica,
apresentamos uma resposta possível.
Joãozinho, um garoto de 9 anos, acaba de se mudar com seus pais para
uma nova casa. A mudança aconteceu à noite (por razões irrelevantes para o
enredo, mas fundamentais para a exposição). Seus pais anunciam que no quintal havia
a casa da árvore que ele tanto sonhava. Entretanto, ao chegar à porta de acesso
da área, algo o impediu de seguir em frente: estava tudo muito escuro, e a
iluminação não funcionava. Apesar do imenso desejo por conhecer e explorar o objeto
do maior desejo, ele não deu um passo, não sabia aonde estaria pisando, e nem o
que encontraria pelo caminho. Os pais orientaram esperar o dia seguinte, tomariam
todas as providências para evitar qualquer risco à sua segurança.
No dia seguinte, logo cedo, o menino levanta com a luz do sol. E antes que
seus pais acordem, corre até a casa da árvore para explorá-la, deixando de lado
as suas recomendações. Sentia-se, naquele espaço exclusivamente seu, livre para
realizar um desejo a tanto incontido. Compensava se expor a qualquer risco.
A população brasileira é esse
garotinho. Enquanto se andava às cegas, com a ciência tentando entender e
explicar a doença, suas formas de transmissão, como e quais órgãos são atacados,
qual a faixa etária em que a doença é mais grave e em qual é apenas uma “gripezinha”;
os brasileiros se postavam diante dos aparelhos de Tv e na internet, estarrecidos
e comovidos com as centenas de mortos diárias ocorridas na França, Itália,
Espanha e por fim nos Estados Unidos. No Brasil, o pânico estabelecido crescia
com algumas poucas dezenas de mortos diários.
Atualmente, três meses depois, o
Brasil chega ao pico da doença com mais de 2 milhões de contaminados, quase 50
mil óbitos e mais de 1.000 vítimas fatais diárias. As UTIs estão no limite de
sua capacidade, enterros são realizados de forma coletiva para atender a
demanda, a falta de EPIs se agrava e medicamentos básicos para os internados nas
UTIs já não são suficientes. Os casos deixam de ser apenas números e passavam a
ter rostos conhecidos.
Na contramão desses fatos, as
praias, os shoppings e outros espaços públicos e privados que concentram um
grande número de pessoas, já estão lotados. Uso de máscaras e outras medidas de
prevenção passam a ser opcionais, ainda que os governos Estaduais os determinem,
por lei, como obrigatórios.
Semelhante ao Joãozinho de nossa
analogia, o terreno foi explorado e agora se tem mais informações sobre o
inimigo a ser encarado, o medo acabou. Ainda que não se tenha as armas para
combater o bom combate, mesmo que se saiba ser uma guerra injusta, agora se tem
informações, conhecimento desse inimigo, é como se não mais importasse ser
vitimado por ela. O cenário se assemelha a uma guerra tradicional, os soldados são
obrigados a se colocar na linha de frente, tendo a consciência que muitos deles
provavelmente não voltarão para ver os seus entes e nem que sairão vitoriosos
da disputa. No nosso caso, fora quem trabalha em serviços essenciais, temos a escolha
de entrar, ou não, na guerra. Sabemos que não temos as armas para enfrentar
esse inimigo implacável. Em troca de uma tal liberdade imediata, grande parte
da população se expõe ao vírus, acreditando que isso valha à pena.
Nesse momento, a nossa luta não é
pela liberdade, é pela vida. É por nossas vidas, é pela vida dos nossos entes
queridos, é pela vida dos nossos amigos, vizinhos, conhecidos, dos nossos
idosos, deficientes e com comorbidades. É pela vida dos profissionais de saúde,
obrigados por um juramento, de proteger a toda e qualquer vida, mesmo que precise
se afastar de sua família, ou se privar se sua liberdade, se expondo ao risco
diário de se contaminar e se tornar mais um número estatístico. Todos nós temos
direito à liberdade, mas esta, de nada vale, se não houver a vida em primeiro
lugar.
* Bacharel em Comunicação Social