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Mourão: Não existe racismo no Brasil |
No dia em que se “comemora” o Dia
da Consciência Negra fomos atingidos por dois grandes golpes. O primeiro, a
morte do João Freitas, espancado covardemente por dois seguranças, brancos, do
supermercado Carrefour do Rio Grande do Sul. E o segundo, a declaração do
vice-presidente da República, Hamilton Mourão, ao afirmar que “não existe
racismo no Brasil”.
Sobre o primeiro, não há qualquer
fato que justifique tal crime. Absurdamente, ainda vemos em mídias sociais declarações
que buscam justificar ou amenizar tão grave e injustificável delito. Recuperam os
antecedentes criminais por violência doméstica que cabiam à vítima, além de ameaça
e porte ilegal de arma. Por mais graves que fossem seus delitos, não justifica
tal crime, nem mesmo a suposta agressão à um dos seguranças, afinal, não
vivemos em um Estado de Barbárie, aonde se justifica a lei de Talião, do olho
por olho e dente por dente, em que vale a rigorosa reciprocidade do crime e da
pena.
Entretanto, quero me ater à
declaração do vice-presidente, quando busca justificar que não há racismo no Brasil.
Segundo ele: o que “existe é desigualdade no país. Há uma brutal desigualdade
devido à uma série de problemas; e grande parte das pessoas mais pobres que tem
menos acesso aos bens e às necessidades da sociedade moderna, são gente de “cor”,
apesar de sermos um país miscigenado”.
Concordo quando o vice-presidente
afirma que o principal problema do país é a desigualdade social. Analisando
desta forma e fazendo um resgate da história da formação da sociedade brasileira,
lembramos que os portugueses que aqui chegaram nos primeiros anos, sempre foram
detentores da riqueza e por conseguinte das melhores posições sociais. Aos
índios e negros sempre foi facultada a escravidão e a ausência de direitos. Com
o advento da abolição institucionalizada da escravidão (que não aconteceria de fato),
coube, os empregos formais remunerados aos imigrantes europeus, brancos, repelindo
a posição dos negros muito mais à margem da sociedade. Posteriormente, por
falta de oportunidades, serão impelidos a viver na marginalidade, e a muitos, à
criminalidade.
Historicamente essa condição de
pobre, marginalizado e desprovido de qualquer direito foi relegada aos negros e
mestiços, que culturalmente estigmatizará a esses, provendo a eles um preconceito
enraizado na sociedade e perpetuando pelas décadas seguintes. Aos brancos
restará as riquezas, as melhores posições sociais, e o medo da perca desses
privilégios pelos pobres, vistos por estes como ameaças.
Ao afirmar que não existe racismo
no Brasil, Mourão busca fazer comparação entre o racismo americano da década de
60 em que ainda trazia traços gritantes da segregação racial que vigorava no
século XX e em países como a Alemanha nazista, com o antissemitismo, a
África do Sul, com o apartheid,
com aquele praticado atualmente, infelizmente, no Brasil, muitas vezes, velado.
Sendo assim, a questão levantada
por Mourão faz sentido quando afirma ser a desigualdade o principal problema do
Brasil, entretanto, essa desigualdade é decorrente da falta de oportunidade que
os negros, em sua esmagadora maioria, foram vítimas, surgindo o racismo
estrutural, que causa disparidades que se desenvolvem entre os grupos ao
longo de um período de tempo, “colocando um grupo social ou étnico em uma
posição melhor para ter sucesso e ao mesmo tempo prejudica outros grupos de
modo consistente e constante”. O vice-presidente acertou quando afirmou que o
problema do Brasil é a desigualdade, entretanto, essa desigualdade, se resume à
racismo.
* Bacharel em Comunicação Social
- UFMA